IFRS 18 em bancos: a anatomia das demonstrações contábeis e o que muda na leitura do lucro

Bancos e Instituições de PagamentoTempo de leitura: 14 minCriado em: 29/09/2026Atualizado em: 29/09/2026

Em dezembro de 1994, o Barings projetava lucro antes dos tributos de £102 milhões. Dois meses depois, o banco mais antigo da City de Londres estava quebrado. O caso é o melhor ponto de partida para entender por que as demonstrações contábeis dos bancos exigem uma leitura própria. Também ajuda a delimitar o que a IFRS 18 muda na apresentação do resultado das instituições financeiras a partir de 1º de janeiro de 2027, e o que ela não alcança.

O caso Barings: 233 anos de história e uma conta chamada 88888

A casa mercantil John & Francis Baring & Co. foi constituída em Londres no Natal de 1762, em plena Guerra dos Sete Anos. Os Estados Unidos ainda não existiam como nação independente. Adam Smith não havia publicado A Riqueza das Nações, e a máquina a vapor de James Watt sequer tinha patente. A Revolução Francesa estava a 27 anos de distância.

Do outro lado do Atlântico, o Brasil era colônia portuguesa, com capital em Salvador (o Rio de Janeiro assumiria a posição no ano seguinte). Não havia bancos no território. O primeiro Banco do Brasil seria criado apenas em 1808, 46 anos depois.

Ao longo dos 233 anos seguintes, o Barings atravessou a Revolução Industrial, as guerras napoleônicas, duas guerras mundiais e a Grande Depressão. Quando colapsou, em 1995, era o mais antigo merchant bank da City.

Os números preliminares de 1994 mostravam um resultado respeitável. Na Barings Futures, em Singapura, porém, outra realidade econômica se acumulava longe dos números apresentados em Londres.

Na conta 88888, criada originalmente para registrar erros operacionais, acumulavam-se perdas de operações não autorizadas com derivativos. No encerramento de 1994, perdas superiores a £200 milhões ainda não haviam sido reconhecidas nas contas do grupo. O valor equivalia a mais do dobro do lucro indicado.

Em fevereiro de 1995, as perdas não reportadas chegavam a £827 milhões. O Barings não conseguiu absorvê-las e entrou em colapso em questão de dias. A investigação oficial concluiu que as operações haviam sido acompanhadas por graves falhas de controles, gestão e supervisão.

Por que o lucro de um banco nunca deve ser lido isoladamente

O caso Barings é extremo, mas deixa uma regra clara. Diante do lucro de um banco, a primeira pergunta é de onde ele veio. Em seguida, quanto risco foi assumido para produzi-lo e quais estimativas o sustentam. Por fim, quanto do resultado é recorrente e qual capacidade a instituição tem para absorver perdas se as expectativas não se confirmarem.

Em 1994, a rentabilidade de £102 milhões, em vez de provocar perguntas, fortaleceu a reputação de seu responsável. É um caso clássico de “conforto cognitivo”: o número bom desarma o questionamento.

As demonstrações contábeis de um banco também são lidas de forma diferente das de uma companhia industrial ou comercial. Em uma instituição financeira, o dinheiro é ao mesmo tempo insumo, produto e meio de liquidação. Os depósitos à vista são fonte operacional de recursos e aparecem como passivos. Os juros pagos integram o custo necessário para gerar a receita de juros.

As perdas de crédito representam o custo da materialização de um dos principais riscos do modelo de negócios bancário. Por isso ocupam lugar central na análise.

Onde as perdas de crédito aparecem na DRE sob a IFRS 18

A IFRS 18 preserva a exigência de apresentação separada das perdas por redução ao valor recuperável determinadas de acordo com a IFRS 9. No exemplo ilustrativo de uma instituição financeira, a norma classifica as perdas de crédito na categoria operacional, antes do lucro operacional.

Essa apresentação associa o risco de crédito ao exercício da atividade bancária e à formação do resultado operacional. Para o analista, o lucro operacional de um banco passa a carregar, na própria estrutura, o custo do risco assumido.

Compreender o resultado bancário exige olhar para o modelo de negócios e a composição do balanço. Exige também avaliar a qualidade dos ativos, a estrutura de captação, a liquidez e o capital. A demonstração do resultado preserva papel central, mas integra um sistema mais amplo de informações contábeis e prudenciais. A IFRS 18 atua sobre essa peça central com categorias, subtotais definidos e princípios mais claros de agregação e desagregação.

A classificação entre categorias e os novos subtotais estão entre os temas centrais do curso IFRS 18: Apresentação e Divulgação em Demonstrações Financeiras, que também dedica um módulo às entidades com atividades de negócio principais especificadas, caso típico dos bancos.

O balanço de um banco é o próprio negócio

No balanço de uma empresa industrial, o usuário identifica instalações, estoques, fornecedores e os reflexos patrimoniais das receitas e dos custos de produção. Em uma instituição financeira, quase todo o modelo econômico está condensado em ativos e passivos financeiros.

Empréstimos e financiamentos concedidos, títulos e valores mobiliários, caixa, reservas, depósitos de clientes, captações no mercado e derivativos compõem esse balanço. Na indústria, o balanço representa os recursos empregados na operação. No banco, ele é, em grande medida, a própria operação. Em companhias não financeiras, o analista costuma começar pela receita, pela margem operacional e pelo EBITDA. Em bancos, a análise começa pelo modelo de negócios, pela estrutura do balanço e pelas relações entre risco, retorno e capital. A composição dos ativos mostra onde o risco foi assumido. A composição dos passivos mostra como esse risco foi financiado.

Três perguntas para analisar as demonstrações de um banco

A leitura das demonstrações bancárias pode ser organizada em três perguntas.

A primeira: o banco é capaz de gerar resultado? Estudos do Banco de Compensações Internacionais (BIS) sobre rentabilidade bancária consideram componentes como margem líquida de juros, receitas não financeiras e provisões para perdas de crédito. O mercado relaciona o preço sobre valor patrimonial a indicadores como qualidade dos empréstimos, composição dos depósitos, receitas recorrentes, ROE, alavancagem e exposição ao risco de taxa de juros.

A segunda: qual risco foi assumido para gerar esse resultado? Duas instituições podem apresentar o mesmo lucro com perfis econômicos completamente diferentes. Uma pode obtê-lo com uma base estável de depósitos e uma carteira diversificada de crédito. Outra pode depender de captação de curto prazo, posições de mercado, concentração setorial ou liberação de provisões constituídas anteriormente.

A terceira: o banco sobrevive se esses riscos se materializarem? Aqui as perdas de crédito esperadas assumem posição central. Elas afetam o resultado do período e transmitem a avaliação da administração sobre perdas que ainda podem ocorrer. O lucro bancário contém, portanto, uma parcela relevante de expectativas sobre o futuro.

Na IFRS 18, o lucro operacional de um banco pode reunir margem financeira, receitas de serviços, resultados de negociação, perdas de crédito e despesas operacionais. A interpretação desse subtotal continua vinculada ao risco assumido para produzi-lo.

As cinco camadas da DRE de um banco

Na demonstração do resultado, o desempenho de um banco costuma ser analisado em cinco camadas. O exemplo ilustrativo da IFRS 18 acompanha essa forma de leitura.

1. Intermediação financeira

A primeira camada mostra quanto o banco recebe pelos ativos remunerados e quanto paga pelas fontes de recursos. A robustez desse resultado depende de volumes, taxas, mix de produtos, custo de captação e sensibilidade às curvas de juros. O exemplo ilustrativo da IFRS 18 apresenta separadamente receitas de juros, despesas de juros e margem financeira líquida, todas na categoria operacional.

2. Prestação de serviços

A segunda camada inclui tarifas bancárias, administração de recursos, cartões, pagamentos, assessoria, custódia e outras comissões. Essas receitas diversificam o resultado e reduzem a dependência da margem financeira, com graus diferentes de recorrência. Na IFRS 18, receitas e despesas de tarifas e comissões aparecem separadas e culminam no resultado líquido de tarifas e comissões.

3. Instrumentos financeiros e atividades de mercado

Ganhos e perdas de negociação, mensuração a valor justo, derivativos e efeitos cambiais podem fazer parte ordinária do modelo de negócios. Costumam, porém, apresentar maior volatilidade. A IFRS 18 vincula a classificação desses resultados à avaliação das atividades de negócio principais especificadas. Em determinadas situações, a classificação também depende dos itens ou riscos administrados pelos instrumentos.

4. Risco de crédito

O usuário compara a margem obtida com as perdas necessárias para sustentar a carteira. Crédito em expansão com custo de risco em queda pode refletir melhoria genuína. Pode também indicar mudança no mix da carteira ou postergação do reconhecimento de deterioração.

5. Estrutura operacional

Aqui a análise se aproxima da feita em outros segmentos. Custos de pessoal, tecnologia, agências, processamento e despesas administrativas ganham destaque, assim como o índice de eficiência. A digitalização torna essa camada mais relevante. Investimentos atuais podem reduzir custos futuros, e nem sempre as métricas tradicionais de eficiência e escala capturam esse efeito.

Quem lê as demonstrações de um banco e o que cada um procura

As prioridades variam conforme o usuário. O acionista e os analistas de mercado procuram retorno, crescimento, dividendos e valorização patrimonial. O credor se concentra em solvência, liquidez e capacidade de pagamento. O depositante quer segurança e disponibilidade imediata dos recursos. O supervisor analisa estabilidade, capital, liquidez, governança e risco sistêmico.

Todos observam, em geral, os mesmos números. Cada um atribui a eles um peso diferente.

Essa pluralidade explica por que o lucro tem importância central, mas não soberana. Um banco pode ser rentável e frágil em liquidez. Pode estar bem capitalizado e gerar retorno insuficiente. Pode divulgar baixa inadimplência enquanto amplia a exposição a segmentos de risco. Ou pode crescer receitas à custa de maior concentração e de fontes menos estáveis de captação.

Lucro recorrente, lucro ajustado e as MPMs da IFRS 18

A diversidade de usuários também explica a quantidade de medidas alternativas usadas pelas instituições financeiras. Resultado recorrente, lucro ajustado e resultado gerencial procuram isolar componentes que a administração considera pouco representativos do desempenho ordinário. ROE, índice de eficiência e custo do risco ocupam posição central nas apresentações a investidores.

A IFRS 18 concentra a definição de medidas de desempenho definidas pela administração (Management Performance Measures, ou MPMs) em subtotais de receitas e despesas usados em comunicações públicas. Resultado recorrente, lucro ajustado e resultado gerencial podem se enquadrar nessa definição, conforme a forma de cálculo e divulgação. ROE, índice de eficiência e custo do risco são razões ou indicadores. Os subtotais usados em seus cálculos, no entanto, podem ser alcançados pelos requisitos da norma. As divulgações exigidas pela IFRS 18 aproximam essas medidas dos números contábeis por meio de explicações, métodos de cálculo e reconciliações. Com isso, tendem a ficar mais transparentes e úteis para o usuário.

Identificar quais indicadores do release trimestral se qualificam como MPM, e como reconciliá-los em nota explicativa, é um dos pontos práticos trabalhados no curso de IFRS 18 da FBM Educação.

Atividades de negócio principais especificadas: como a IFRS 18 se adapta aos bancos

A IFRS 18 estabelece uma estrutura comum para a demonstração do resultado. Ao mesmo tempo, reconhece que essa estrutura não pode ser aplicada mecanicamente às instituições financeiras.

Para um banco, conceder financiamento, investir em determinados ativos financeiros e captar recursos de clientes são elementos centrais do modelo de negócios. A avaliação das atividades de negócio principais especificadas orienta a classificação dessas receitas e despesas na categoria operacional. Em uma indústria, os mesmos itens tenderiam a cair nas categorias de investimento e financiamento.

A principal contribuição da norma para os bancos está na forma como a operação é estruturada, desagregada e comunicada aos usuários. Para instituições que também reportam no padrão do Banco Central, essa estrutura precisa conviver com o COSIF, tema detalhado no artigo sobre IFRS 18 e Resolução BCB nº 2 em instituições financeiras. Para revisar os fundamentos do padrão regulatório, o guia completo sobre contabilidade para instituições financeiras organiza os conceitos de COSIF, BACEN-GAAP e IFRS aplicados ao setor.

O que a IFRS 18 resolve e o que continua dependendo de controles

O retorno ao Barings ajuda a delimitar o alcance da norma. As operações não autorizadas em Singapura, a ausência de segregação de funções e a ocultação deliberada das perdas pertencem ao campo dos controles, da governança e do reconhecimento contábil.

A IFRS 18 atua quando a realidade econômica chega às demonstrações. Ela organiza a forma como o resultado é apresentado e explicado aos usuários. A lição do Barings permanece atual: todo número de lucro é apenas o início da análise.

Para as instituições financeiras, a contribuição da IFRS 18 está em oferecer uma linguagem mais estruturada para decompor, compreender e questionar o lucro. O julgamento do usuário, a análise de risco, os controles internos e a supervisão prudencial completam essa leitura.

O Barings atravessou 233 anos e sucumbiu diante da distância entre os números apresentados e sua realidade econômica. A IFRS 18 busca tornar essa realidade mais legível nas demonstrações contábeis.

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A norma vale para exercícios iniciados a partir de 1º de janeiro de 2027, com aplicação retrospectiva. Na prática, o comparativo de 2026 precisa ser reapresentado no novo formato, e os dados deste exercício já devem ser capturados com a granularidade que a reclassificação exige.

O curso ao vivo IFRS 18: Apresentação e Divulgação em Demonstrações Financeiras reúne 12 horas de conteúdo nos dias 16, 18, 23 e 25 de novembro de 2026, das 19h às 22h. O instrutor é Patrick Matos, diretor executivo de Contabilidade e Impostos da CI&T. O programa cobre classificação entre categorias, subtotais, entidades com atividades principais especificadas, MPMs, agregação e desagregação, publicação do CPC 51 e os desafios operacionais da implementação. A participação vale 12 pontos no Programa de Educação Profissional Continuada do CRC.

A FBM Educação é o único parceiro de ensino do ICAEW no Brasil para a Certificação Internacional em IFRS em português desde 2007 e já capacitou mais de 20.000 profissionais.

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Perguntas frequentes sobre IFRS 18 em bancos

Quando a IFRS 18 entra em vigor?

A IFRS 18 e o CPC 51 valem para exercícios iniciados a partir de 1º de janeiro de 2027. Como a aplicação é retrospectiva, as demonstrações de 2027 trazem o comparativo de 2026 reapresentado no novo formato.

Onde ficam as perdas de crédito na DRE de um banco sob a IFRS 18?

No exemplo ilustrativo de uma instituição financeira, a IFRS 18 apresenta as perdas de crédito determinadas pela IFRS 9 separadamente, na categoria operacional e antes do lucro operacional.

Por que a análise de um banco é diferente da análise de uma indústria?

Porque o balanço de um banco é composto quase inteiramente por ativos e passivos financeiros, que formam o próprio negócio. A análise começa pelo modelo de negócios e pela relação entre risco, retorno e capital. Receita e EBITDA ficam em segundo plano.

O que são MPMs na IFRS 18?

MPMs (Management Performance Measures) são subtotais de receitas e despesas que a administração usa em comunicações públicas, como o lucro recorrente ou o lucro ajustado. A IFRS 18 exige que sejam definidas, explicadas e reconciliadas com os subtotais da norma em nota explicativa.

A IFRS 18 teria evitado o colapso do Barings?

Não. A quebra do Barings decorreu de operações não autorizadas, falhas de segregação de funções e ocultação de perdas, temas de controles internos e governança. A IFRS 18 atua na apresentação do resultado depois que a realidade econômica é reconhecida nas demonstrações.

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